Hilmar Farid

O Fluxo Reverso da Cultura: História Como Crítica

Tradução de Gladhys Elliona e Laura Erber

SINOPSE

Em dezembro de 2014, o historiador e ativista indonésio Hilmar Farid proferiu um discurso que se tornaria marco no debate sobre identidade nacional e política cultural na Indonésia. Publicado originalmente em Bahasa, este ensaio chega ao português pela primeira vez nesta edição da Zazie, em tradução de Gladhys Elliona em colaboração com Laura Erber, acompanhado de prefácio de Adrian Perkasa.

O argumento central de Farid é ao mesmo tempo histórico e político: a Indonésia, um dos maiores arquipélagos do mundo, abandonou sua vocação marítima e se voltou para uma identidade predominantemente agrária. Esse “fluxo reverso” — que alude ao romance Arus Balik, de Pramoedya Ananta Toer — teve início no século XVI, com o declínio dos grandes reinos marítimos javaneses, e foi reforçado pelo colonialismo holandês.

As consequências persistem até hoje. Mesmo após a declaração do Estado arquipelágico em 1957, que ampliou significativamente o território indonésio ao incorporar as águas entre as ilhas, a mentalidade dominante continua a ver o mar como obstáculo, não como ponte. Para Farid, o problema não é apenas de infraestrutura ou legislação, mas cultural: duzentos anos de negligência criaram uma sociedade que vive de costas para o oceano.

O texto é também um manifesto pela transformação cultural. Farid propõe que a Indonésia reconquiste sua dimensão marítima não pela restauração do passado, mas pela renovação de conhecimentos, perspectivas e modos de vida. Essa mudança exige três movimentos: consciência plena do espaço em que se vive, ação concreta em vez de planejamento abstrato, e capacidade de escutar as múltiplas vozes que compõem a sociedade.

O discurso antecipa muitas das políticas que Farid implementaria como diretor-geral de Cultura da Indonésia (2015-2024), incluindo o projeto Jalur Rempah (Rota das Especiarias), que articulou pesquisa acadêmica, diplomacia cultural e saberes tradicionais, inspirando obras como A maldição da noz-moscada, de Amitav Ghosh.

Mais do que um estudo sobre a Indonésia, este ensaio oferece uma reflexão sobre como as sociedades constroem suas identidades e sobre o papel da história como ferramenta crítica para imaginar futuros possíveis.

 

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